Clima em 2026 no Brasil: da La Niña a um El Niño que pode ser histórico

Mapas de satélite da NOAA mostrando o aquecimento do Oceano Pacífico Equatorial entre março e agosto de 1997

Se você sentiu que o tempo andou “diferente” em 2026, não é impressão. Em poucos meses, o Oceano Pacífico passou de uma fase de resfriamento (La Niña) para um aquecimento acelerado (El Niño) — e as projeções mais recentes indicam que este pode ser um dos El Niños mais intensos já registrados. Entenda o que está acontecendo, por que isso mudou e como o fenômeno afeta cada região do país.

O que é o El Niño?

O El Niño é o aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial. Faz parte de um ciclo natural chamado ENOS (El Niño–Oscilação Sul), que tem três fases: El Niño (aquecimento), La Niña (resfriamento) e neutralidade. Mesmo acontecendo longe daqui, esse aquecimento muda a circulação dos ventos e das chuvas no planeta inteiro — e o Brasil é um dos países mais sensíveis a ele.

Oficialmente, considera-se que há El Niño quando a anomalia de temperatura na região chamada Niño 3.4 fica em +0,5 °C ou mais, acompanhada de resposta da atmosfera.

Linha do tempo: como o clima virou em 2026

Com base nos boletins da NOAA (agência dos EUA) acompanhados pelo Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), a virada aconteceu assim:

  • Janeiro: a La Niña ainda estava ativa, mas já havia 75% de chance de transição para neutralidade até março.
  • Março: a NOAA emitiu o alerta de “El Niño Watch”, com 62% de chance de o fenômeno se formar no inverno.
  • Abril: as condições neutras se estabeleceram no Pacífico.
  • Maio: a probabilidade de El Niño saltou para 82%.
  • 11 de junho: o El Niño foi declarado oficialmente. A região Niño 3.4 marcava +0,7 °C, e a costa do Peru e do Equador (Niño 1+2) já estava +2,1 °C acima da média.
  • Julho: o fenômeno já tinha intensidade moderada.
  • Agosto e setembro: as projeções passaram a indicar grande chance de um El Niño muito forte na primavera e no verão 2026/2027 — possivelmente o mais intenso desde 1950.

Os principais motivos dessa mudança

1. O fim natural da La Niña

O ENOS funciona como um pêndulo. Depois de um período de La Niña, em que ventos fortes empurram a água quente para o oeste do Pacífico (perto da Indonésia e da Austrália), esse “estoque” de calor tende a voltar. Com o enfraquecimento da La Niña no início de 2026, abriu-se caminho para a fase oposta.

2. Enfraquecimento dos ventos alísios

Os ventos alísios, que sopram de leste para oeste sobre o Pacífico, perderam força. Sem eles, a água quente acumulada no oeste “escorrega” de volta em direção à América do Sul, e o afloramento de águas frias do fundo do mar perto do Peru diminui. É por isso que a costa sul-americana (região Niño 1+2) aqueceu primeiro e mais rápido.

Mapas de satélite da NOAA mostrando o aquecimento do Oceano Pacífico Equatorial entre março e agosto de 1997
Evolução do El Niño de 1997, um dos mais fortes já registrados. Imagem: NOAA (domínio público).

3. Um efeito que se retroalimenta

Quanto mais o oceano esquenta, mais os ventos enfraquecem — e quanto mais os ventos enfraquecem, mais o oceano esquenta. Esse mecanismo de retroalimentação entre mar e atmosfera explica por que o El Niño de 2026 ganhou intensidade tão depressa entre junho e setembro.

4. Oceanos mais quentes por causa do aquecimento global

O El Niño é um fenômeno natural, mas hoje ele acontece sobre um planeta mais quente. Os oceanos vêm batendo recordes de temperatura nos últimos anos, o que significa que cada novo El Niño parte de um patamar mais alto. Isso tende a potencializar ondas de calor, secas e chuvas extremas associadas ao fenômeno.

O que esperar em cada região do Brasil

O El Niño costuma ter efeitos opostos no norte e no sul do país. Para a primavera e o verão 2026/2027, o INMET destaca:

Vista aérea do Rio Negro com bancos de areia expostos durante período de seca perto de Manaus
Bancos de areia expostos no Rio Negro, perto de Manaus, em período de seca. Foto: lubasi / Wikimedia Commons (CC BY-SA 2.0).
RegiãoTendênciaRiscos
SulChuvas acima da médiaTemporais, enchentes e cheias de rios, com atenção especial ao Rio Grande do Sul
Norte e NordesteChuvas abaixo da média e calor intensoSeca, perda de umidade do solo e impacto nos reservatórios; temperaturas que podem passar de 40 °C
Centro-OesteTemperaturas elevadasEstiagem prolongada e maior risco de queimadas
SudesteComportamento irregular, com picos de calorAlternância entre períodos chuvosos e ondas de calor

No geral, a tendência é de temperaturas acima da média histórica em grande parte do país.

Rua alagada no centro de Porto Alegre com marcas de lama nas paredes dos prédios após a enchente de 2024
Centro de Porto Alegre durante a enchente de maio de 2024. Foto: Ricardo André Frantz / Wikimedia Commons (CC BY 4.0).

E setembro?

Segundo a Climatempo, setembro de 2026 trouxe pancadas de chuva no Centro-Oeste e no interior do Sudeste logo nos primeiros dias, o que ajuda a reduzir o risco de incêndios. Já o Norte e o Nordeste seguem com calor forte, enquanto o Sul teve frentes frias e risco de geada no início do mês.

Por que isso importa para você

  • Agricultura e preços: seca no Norte e Nordeste e excesso de chuva no Sul podem afetar safras e, consequentemente, o preço dos alimentos.
  • Energia: reservatórios mais baixos pressionam a geração hidrelétrica e podem refletir na conta de luz.
  • Saúde: ondas de calor exigem atenção redobrada com hidratação, principalmente de idosos e crianças.
  • Defesa Civil: no Sul, vale acompanhar os alertas oficiais durante períodos de chuva forte.

Conclusão

2026 marca uma virada climática importante: da La Niña do começo do ano para um El Niño que pode entrar para a história. Os próximos meses, especialmente entre outubro e janeiro, devem concentrar os efeitos mais fortes. Acompanhar as previsões oficiais do INMET e os alertas da Defesa Civil é a melhor forma de se preparar.


Fontes: INMET – El Niño está de volta; INMET – De La Niña a um possível El Niño muito forte; Climatempo – Clima em setembro de 2026; NOAA Climate Prediction Center.

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